Há algum tempo ouvimos falar sobre os efeitos do aquecimento global sobre nossas vidas. Todos sofrerão os efeitos e a viticultura não fica de fora. Aliás, mudanças importantes já podem ser percebidas e a situação pode se tornar alarmante a médio prazo.
Os vinhedos estão vulneráveis uma vez que as uvas são resultado do terroir, uma combinação do clima (macro e micro), do solo e das gerações de seus viticultores. Já é possível, em algumas regiões, observar um nível maior de açucar nas uvas, uma textura mais pesada e sabores diferentes, dado o aumento da temperatura. E as colheitas estão sendo adiantadas, já que as uvas estão amadurecendo mais rapidamente. O maior medo, porém, vem da redução da umidade dos solos. Sem a devida irrigação e umidade, as uvas não amadurecem como deveriam, comprometendo a qualidade do vinho. Segundo previsões apresentadas no winebusines.com, o nível de água dos solos pode cair em até 15% até 2030 e 17% até 2060. O impacto pode reduzir a produção de vinhos em até 8%.
A Universidade Southern Oregon, nos Estados Unidos, realizou uma pesquisa comparando informações climáticas de 27 regiões diferentes e a pontuação das safras realizadas pela Sotheby’s na intenção de achar alguma tendência entre a qualidade de um vinho e o aumento de temperatura. Primeiramente, verificou que houve um aumento médios de 2 ºC na temperatura e, posteriormente, que houve um aumento na qualidade dos vinhos para a maioria das regiões. Porém, deve ser levado em consideração o fato de que houve um grande progresso nas tecnologias utilizadas para o cultivo das uvas e para a produção do vinho. Hoje em dia é possível contornar problemas que antigamente seriam suficientes para acabar com toda uma safra. Além disso, o grande aumento dos preços dos vinhos finos deu, a seus produtores, condições de serem mais seletivos e exigentes.
Utilizando o mesmo método já utilizado para previsões das mudanças das condições para agricultura, os pesquisadores obtiveram resultados que sugerem que a temperatura vá aumentar uma média de 2.04º C até 2049. Para as regiões mais frias, isso pode significar a possibilidade de cultivar outras variedades de uvas antes inviáveis pela baixa temperatura. Porém, isso pode provocar desastres. Em regiões de climas mais quentes, as uvas podem chegar a altos níveis de açúcar, mas sem sabores e podendo até levar muito tempo para desenvolvê-los. Alguns produtores terão que considerar a idéia de cultivar outras variedades de uvas que aceitarão o novo clima. Ou então, eles terão que lidar com outros tipos de problemas já que talvez um nível maior de açúcar não seja algo indesejável. Conter a acidez, desenvolver os devidos sabores e lidar com um número maior de pestes talvez sejam seus novos desafios.
A França, capital mundial do vinho, já fala em projetos para diminuir em 40% a emissão de CO2 até 2020, um plano ambicioso. Porém, mesmo retendo a emissão seus efeitos serão sentidos durante muitos anos. Vincente Sanchez, da Associação Federal de Enologia da Espanha, diz que ainda que os Estados Unidos (maio emissor de gases) se submetam às exigências do protocolo de Kyoto, nós continuaremos a sentir os efeitos das emissões atuais durante os próximos 150 anos. Assim, ainda que sejam previsões, fica claro que grandes mudanças ocorrerão e que os viticultores precisarão de muito jogo de cintura para se re-adaptar as novas condições e manter a qualidade de seus vinhos.